Indagações sobre missões – II

O que te impede fazer missões: necessidades?

Quanto à mulher, deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: Vinde comigo e vede,…” (João 4:28-29).

Talvez para os discípulos de Jesus, ainda não era tempo de evangelizar os samaritanos. Foram até a cidade de Sicar comprar provisões, mas não falaram a ninguém sobre Jesus, que estava ali tão perto deles. Isso porque eles estavam preocupados com os aspectos “materiais” e “administrativos” do ministério de Jesus (Jo 4:8,27).

Mas, ao contrário, a mulher samaritana que foi ao poço com o jarro de água, cheia de necessidades terrenas, deixou o seu cântaro e foi falar a todo mundo que havia tido uma experiência pessoal com o Messias, o seu testemunho era pessoal e produtivo (Jo 4:28-30).

A fé, que havia sido acesa no coração da mulher samaritana, a fez ter o desejo ardente para se expressar e a constrangeu a tornar-se uma missionária do Senhor. Foi para a cidade, onde provavelmente naquela hora do dia, havia um intervalo nos afazeres, e ela facilmente poderia encontrar grupos de pessoas.

Ela se sentiu impelida a ir até seus conterrâneos na vila, para dizer-lhes o que experimentara e como conhecera a Jesus, o Messias. Ela não fez um longo discurso eloquente ou carregado de emocionalismo, disse como ELE havia tratado de seu passado. Seu clamor missionário foi apenas um chamado: “Vinde e vede!” (Jo 1:46; 4:29).

Qual seu alimento como Igreja?

A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou,
e completar a sua obra
” (João 4:34).

Aprendemos com Jesus que fazer a “a vontade daquele que nos enviou” (Mt 28:19; Jo 20:21) não consiste em ser superior a todas as necessidades terrenas e não conhecer cansaço e fome. Tampouco reside numa vida esplêndida que dispõe de satisfação e sossego em abundância.

Como o “Filho Enviado” (Jo 3:17; 4:34), Jesus viveu integralmente para a vontade do Pai, o fez de tal modo que sua missão não representava um serviço trabalhoso a ser realizado com penosa obediência, mas de tal forma que esse próprio serviço se tornava seu “alimento” (Jo 4:32).

Sem dúvida alguma, Jesus estava falando de “obediência”. Jesus não cumpriu sua própria vontade, mas “a vontade daquele que o enviou”. A cumpriu, porém, por vontade própria, de forma totalmente espontânea. Jesus não realizou a sua própria obra, mas somente a daquele que o “enviara” (Jo 6:38; Fp 2:7-8).

Não devemos procurar “satisfazer” nossas próprias vontades, nos entusiasmar buscando superar todas as coisas a fim de nos saciar. É a obra do Pai que ELE, Jesus, foi enviado para “consumar”, e foi essa mesma obra que a Igreja foi enviada ao mundo para fazer (Jo 6:38-40, 20:21).

Qual a recompensa por fazer missões?

O ceifeiro recebe desde já a recompensa e entesoura
o seu fruto para a vida eterna;…” (Jo 4:36).

A Igreja, ou o cristão individualmente, que se envolve com missões terá com certeza sua recompensa. É isso que o Senhor Jesus está afirmando no texto destacado, e ELE fala não somente da “recompensa” do ceifeiro, mas também do “regozijo” que tanto o “semeador como o ceifeiro” terão pelo árduo trabalho na seara do Reino (Jo 4:36).

Jesus realizou o extenuante trabalho de semeadura com o anuncio das “boas novas” (Mt 4:7; Mc 1:14-15) e consumando sua obra salvadora (Jo 12:31-32; Lc 24:44-48). Por isso, no contexto missionário do texto em destaque, o Semeador e o ceifeiro são pessoas diferentes, que juntas se regozijam pelo que seus esforços combinados realizam. Cristo está falando de si e de seus “enviados” (Jo 4:36-37; 1 Co 3:5-9).

Jesus, ao destacar o papel do “ceifeiro“, fala daqueles que geram no próximo mais do que mero envolvimento superficial com Jesus (religiosidade). Ele está falando de quem gera o fruto da “vida eterna” no próximo, a fim de colher o “fruto genuíno” da salvação (Jo 6:39-40, 17:3).

No reino espiritual o ceifeiro é aquele que proclama a salvação, que leva outros à fé salvífica em Cristo Jesus, fazendo algo de relevância eterna. Um dia, irá regozijar-se no céu por causa daqueles que foram salvos graças a seus esforços, orações e testemunho.

Ceifeiro é todo aquele que procura “armazenar os salvos como frutos” no céu e não apenas como “membros” numa igreja (Is 53:11; Ap 7:9-10).

Sua Igreja coopera em missões?

Pois, no caso, é verdadeiro o ditado: Um é o semeador, e outro é o ceifeiro.” (Jo 4:37).

Missões é um trabalho feito na base da “cooperação”. Cooperar, segundo o dicionário, é atuar, juntamente com outros, para um mesmo fim; contribuir com trabalho, esforços, auxílio; colaborar. Esse versículo indica que tanto o semeador como o ceifeiro trabalham juntos, cada qual no cumprimento de seu dever, e todos compartilhando dos bem-aventurados resultados de uma safra produzida em comum (Jo 4:36-38).

E é justamente isso que o Apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar que “somos cooperadores na lavoura de Deus” em 1 Coríntios 3:9, onde, no original, o termo traduzido por “cooperadores” indica um negócio, serviço, ou aquilo com o que alguém está ocupado e se “comprometeu” de fazer. Nós como Igreja devemos compreender o “Ide” como um compromisso de obediência (Mt 28:19-20; Mc 16:15).

O Senhor Jesus, expressou o prazer que tinha em seu trabalho (Jo 4:34), agora estimula seus discípulos a trabalharem com Ele, e por isso deveriam ser trabalhadores como Ele, e fazerem de seu trabalho sua comida, assim como Ele fazia. Embora exista uma divisão de trabalho como afirmou Jesus: “um é o que semeia, e outro, o que ceifa”, há uma unidade, pois, o produto final é um só (Is 53:11; Jo 4:36, 12:24,33-34).

Infelizmente muitos se empenham em realizar o trabalho da “ceifa” no início de ministérios pessoais ou denominacionais, porém, por diversos motivos, não os levam com a mesma intensidade até o fim. Os que se empenham em ser “ceifeiros“, em colher almas para Cristo (Jo 7:38; 20:21), devem realizá-lo da mesma forma como fez nosso Senhor Jesus, que estava concentrado em concluir seu trabalho (Jo 12:24-27; 13:1).

Os “ceifeiros” devem entender que o tempo da ceifa é uma oportunidade, um período curto e limitado, que não continua para sempre, e o trabalho da colheita é um trabalho que deve ser executado nesse tempo, ou nunca mais poderá ser feito (Jo 9:4-5; 12:35-36,46-50).

Sua Igreja colhe o que não plantou?

Eu vos enviei para ceifar o que não semeastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.” (Jo 4:38).

Além de missões ser um trabalho feito na base da “cooperação” (Jo 4:37), também é um trabalho de continuidade. Quando se fala de missões, o “pioneirismo” real sempre será de Deus que “enviou seu Filho à Terra” (Jo 3:15-17). Mas, em muitos lugares, haverá trabalhadores que estarão trabalhando nas distintas fases de uma seara, do preparo do campo até a ceifa (Jo 4:38).

Em Jo 4:38 Jesus expressa uma perspectiva profética de sentido amplo e abrangente e, com certeza, não falou apenas de seu semear pessoal. Ele abrangeu toda a história de Deus desde a Antiga Aliança, no trabalho rico em agruras, fardos e sofrimentos dos profetas, que pareceu ser vão (Mt 21:33-46; 23:34-35). Por isso, na Nova Aliança, os apóstolos teriam o privilégio ceifar a colheita farta onde não haviam semeado (Jo 4:39-42; At 2:14-41).

É verdade que no Reino de Deus um homem tem a alegria de semear e um outro a da colheita. Esta é uma verdade que sempre se confirma na pregação do evangelho. Um missionário evangelista, semeia a semente da Palavra, e, como regra, só enxerga resultados pequenos. Mas, anos mais tarde, depois que o trabalho preliminar alcançou seu alvo, os que os sucedem colhem os resultados em medidas maravilhosas (At 2:37-41; 4:4; 14:27; 15:3).

Mas, o Apóstolo Paulo deixou claro aos cristãos de Corinto que “nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Co 3:6-9). Com isso ele está dizendo que a ênfase na obra missionária deve recair sobre Deus e não sobre os trabalhadores da seara. Devemos tirar os nossos olhos dos instrumentos e colocá-los em Jesus, afinal, quem iniciou a sementeira foi Deus (Jo 12:23-33).

Na história da igreja, as grandes colheitas em forma de movimentos e avivamento, foram sempre ações do próprio Deus, o “Dono da seara” (Mt 9:38) que, na pessoa do Espírito Santo, leva as pessoas à Cristo para a salvação (Jo 6:44; 1 Co 3:7). Ele mesmo é quem, de tempos em tempos, contrata os trabalhadores para a ceifa da semente que Ele plantou (Mt 20:1-7) pagando o que é justo e conforme o combinado (Mt 20:8-16).

Contudo, na obra da colheita no Reino, ambos serão recompensados ao ver novos cristãos entrando no Reino de Deus. Desta forma, todos, do Semeador original aos semeadores e trabalhadores da ceifa, receberão a recompensa (Is 53:11; Jo 4:36; Ap 7:9-10).