Por corvos e viúvas, o milagre do sustento

“Dispõe-te, e vai a Sarepta, que pertence a Sidom, e demora-te ali,
onde ordenei a uma mulher viúva que te dê comida.” (1 Reis 17:9)

 

Acredito que muitos percebem que vivemos um tempo difícil na Igreja de Cristo de uma forma geral no Brasil. Há uma apostasia velada decorrente de uma linha de doutrinas teológicas um tanto triunfalista, antropocêntrica e humanista que faz o próprio cristão e, especialmente, aquele que “se diz cristão”, duvidar da soberania, graça e amor de Deus. Sim, do Deus que amou tanto essa humanidade corrompida que enviou seu Filho Amado, Jesus Cristo, como propiciação salvadora definitiva para os que nEle crer (Jo 3:16-18; Rm 3:21-26; 1 Jo 2:2).

Infelizmente muitos da geração cristã de hoje (não todos, é claro) são frutos de igrejas que ao longo dos últimos anos assumiram uma posição doutrinária triunfalista, ou, no mínimo, foi contaminada por pensamentos ou “modismos” baseados em “visões” que afetaram de alguma forma a “fé” daqueles que delas faziam parte e receberam, ou ainda recebem, ensinamentos um tanto antibíblicos. Isso influenciou diretamente de uma forma geral a vida de muitos que têm assumido hoje seus ministérios, especialmente pastores e missionários. E uma dessas áreas é a da “provisão de Deus” para as necessidades básicas no ministério pessoal.

Perceba que não usei o termo “sustento financeiro”, como muitos gostam de usar quando falam de suas necessidades para se manter no ministério ou no campo missionário, porque, o dinheiro pode até ser usado por Deus para prover o que necessitamos diariamente, e é claro que este é o meio mais comum usado por nosso Deus, contudo, na obra de Deus, especialmente na vida ministerial, que inclui o campo missionário, acredito que as coisas não seguem um “padrão” humano orçamentário. Vejo muitos dizendo que entregaram suas vidas cem por cento a Deus e que decidiram “viver da fé”, mas ainda precisam desenvolver essa fé através de experiências pessoais com Deus. Por isso, a primeira coisa que devemos perguntar a essa pessoa é se ela tem certeza de sua decisão e, segundo, se Deus realmente requereu isso dela.

Isso porque, se alguém decide “viver pela ou da fé”, a primeira coisa é saber definir o que é “fé”. Sim, vou citar aqui Hebreus 11:1, que na versão da Linguagem de Hoje diz: “A fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver.” (Hb 11:1 -NTLH). Contudo, essa “certeza” que o autor da epístola aos Hebreus cita não pode ser a “certeza” baseada no “sentir no coração” ou na convicção de “determinações supostamente proféticas”, mas, a certeza na “Palavra de Deus” dada por Ele por algum meio e certificada em nós pelo Espírito Santo. E lembre-se que, se for por meio de “profecia”, antes de se crer no que foi dito, ou obedecer ao que se foi determinado, a “profecia” deve ser “julgada” (1 Co 2:14-15; 1 Ts 5:20-21; 1 Jo 4:1).

Sobre a provisão para o ministério, especialmente para os que decidem ir para o campo missionário, gostaria de citar aqui o exemplo de um “Profeta Missionário”. O Profeta Elias, a meu ver, foi um profeta missionário, pois ele sempre agiu sob a determinação direta de Deus, ou seja, Deus lhe dava uma “missão” e, então, ele ia e a cumpria. O Profeta Elias foi contemporâneo do rei Acabe, cujo resumo de sua biografia está em 1 Reis 16:29-34. Acabe foi casado com a terrível Jezabel, mulher natural da cidade fenícia de Tiro onde seu pai tinha sido sumo sacerdote do deus Baal a quem Jezabel adorava. Por isso, para agradá-la, Acabe edificou um templo e um altar para Baal (1 Rs 16:32), promovendo assim a idolatria e guiando à nação inteira de Israel ao pecado. O rei Acabe foi considerado o mais terrível rei de Israel (1 Rs 16:30).

É neste cenário que temos um exemplo do que é “viver da fé”, especialmente no que diz respeito ao “sustento no campo missionário”. Após a biografia de Acabe, já no capítulo 17 de primeiro livro de Reis aparece o Profeta Elias lançando o juízo de Deus contra o rei Acabe e, por consequência, a toda Israel. E antes que você diga: Ah! Mas, era o Profeta Elias!? Gostaria de dizer que a Palavra de Deus diz que ele, o Profeta Elias era um “homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos” (Tg 5:17-18), e alguns desses sentimentos são o medo e a decepção depressiva (1 Rs 19:2-4).

Entre a profecia da seca (1 Rs 17:1) e a profecia da chuva (1 Rs 18:1,41-45) Deus não deixou faltar o necessário ao “Profeta Missionário”, mas, o interessante é como Deus fez isso acontecer. Primeiro Deus faz algo sobrenatural, Ele envia corvos para alimentar o Profeta com “carne e pão” de manhã e no final da tarde (1 Rs 17:3-6). O que você precisa aprender nesse texto e nos demais que seguirão sobre o Profeta Elias é que ele só fazia o que Deus lhe mandava. O sustento pelos corvos só aconteceu porque o Profeta creu e obedeceu a Deus “indo” para onde Ele, o próprio Deus, havia mandado.

Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas.” (Amós 3:7)

Quando uma pessoa é submissa a Deus e sempre age sob a vontade dEle, quando Ele prepara alguma mudança que afetará drasticamente a vida da pessoa, Ele sempre a avisa antes (Gn 18:17; Am 3:7). Mas, infelizmente, muitos perderam a sensibilidade de ouvir Deus na Pessoa no Espírito Santo. E esse tem sido o erro de muitas Igrejas, de agências missionárias e até dos missionários (At 13:1-4; 16:6-10). Muitos, ultimamente, tem ido para o campo por afinidade cultural ou interesse pessoal (aprender línguas ou oportunidade de “negócio”, viver uma “aventura”, etc). Já as Igrejas e agências, tem enviado para onde elas “têm necessidade de pessoas” para manter algum projeto, sem escutar se é ali o lugar que o Espírito Santo quer aquela pessoa. Se agirem assim, tanto a pessoa enviada, pastor ou missionário, quanto a Igreja ou agência enviadora, não experimentarão o “sustento sobrenatural” da parte de Deus, e sempre terão que “apelar” para a misericórdia e bondade dEle no que diz respeito ao sustento. O segredo do sustento sobrenatural está no fato de se “crer” e “obedecer” indo para o lugar que Deus “mandar” a fim de “fazer” o que Ele determinou, assim, Deus terá compromisso de cumprir em sua vida o que Ele declarou sobre sua “missão” (Is 55:10-11).

Voltando ao Profeta Missionário, assim que a água da qual o Profeta se servia secou (1 Rs 17:4,7) ele não ficou ali “determinando” que a água voltasse a correr, acredite, se fosse uma pessoa cheia de “doutrina triunfalista” iria demandar “sua benção” de volta e requereria a “restituição da torrente de Querite”. Lembre-se que, os “planos de Deus não são os nossos planos” (Jó 23:13; Is 55:8-9), por isso, Ele sempre o “adéqua” da forma que Ele sabe ser o melhor para nossas vidas. Com certeza, a ação do Profeta foi orar e buscar a direção de Deus, pois a seguir, o texto diz que a Palavra de Deus foi dada ao Profeta dizendo: “…, e vai a Sarepta, que pertence a Sidom, e demora-te ali, onde ordenei a uma mulher viúva que te dê comida” (1 Rs 17:8-9).

Agora Deus informa ao Profeta que Ele tinha levantado uma “mantenedora”, sim, alguém que “sustentaria” o Profeta durante todo o restante da seca. Deus manda o Profeta ir para Sidom, terra da perversa rainha Jezabel e dos inimigos pervertidos de Deus (1 Rs 16:31), um lugar perigoso para um Profeta de Israel. Além disto, antes do Profeta partir em sua jornada, Deus diz que a “mantenedora” dele seria uma mulher viúva (1 Rs 17:8-9). Como antes, o profeta não questionou a ordem de Deus, ele obedeceu sem perguntar se a viúva era rica ou pobre, porque sua confiança não estava na viúva ou no que ela poderia possuir, a confiança do Profeta estava no Deus que Tudo Pode (Jó 42:2; Jr 32:17). Histórica e culturalmente, nos tempos e povos bíblicos, especialmente no Antigo Testamento, a mulher era desprezada socialmente, como em muitos países e sociedades ainda o é. Então, o que passaria em sua cabeça, se Deus mandasse você ir para o meio de seus inimigos para ser sustentado por uma “mulher viúva”?

O texto diz que quando o Profeta chegou à porta da cidade, encontrou uma mulher “apanhando lenha” (trabalhando). O profeta, estava necessitado, com sede e faminto, pediu água para beber, e aquela mulher deixou o que estava fazendo para “servir” o profeta. E, enquanto ela ia, o profeta também pediu um pedaço de pão, então, aquela mulher viúva voltou e declarou seu estado de extrema pobreza ao dizer ao Profeta que iria preparar sua última refeição e esperar a morte dela e do filho (1 Rs 17:10-12).

Qual foi a reação do Profeta? Deixou aquela miserável mulher ali, afinal, talvez ele tivesse se enganado e errado a pessoa, então era necessário “encontrar” uma outra, a certa, que pudesse dar a ele o que precisava, quem sabe até arrumar um outro “meio” de se “auto sustentar”, afinal, coitada daquela senhora, era muito pobre. Não! Não foi assim. Quem “vive pela fé” não pode ter uma “fé vacilante” (Mt 21:22; Tg 1:6-8). O Profeta não questionou Deus e muito menos duvidou de sua ordem, pois, sua fé, estava firmada em Deus e não nos “meios” que Ele usa para fazer sua obra prevalecer.

Pela resposta daquela viúva ao Profeta, fica claro que ela, de alguma forma o reconheceu como Profeta e o Deus a quem ele servia: “Tão certo como vive o SENHOR, teu Deus,…” (1 Rs 17:12). O Profeta, com base nesse limitado conhecimento de quem ele era e o Deus que ele servia, deu aquela mulher uma palavra, não fazendo “manipulação emocional”, ou dizendo “acho que” e muito menos dizendo “senti no coração” (Jr 17:9), não; ele deu a ela uma “Palavra Profética” verdadeira (1 Rs 17:13-14) que foi o critério de conduta da mulher que, obedientemente, executou as ordens do Profeta, e foi assim que, “da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou” (1 Rs 17:13-14). Isso nos ensina que todo milagre, pequeno ou grande, começa com um ato de obediência à Deus e aos verdadeiros homens de Deus (2 Cr 20:20). Mesmo sendo essa viúva uma gentia, sua fé incomparável foi utilizada pelo Senhor Jesus para ensinar sobre a fé pessoal e a graça de Deus para com os gentios:

Na verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses, reinando grande fome em toda a terra; e a nenhuma delas foi Elias enviado, senão a uma viúva de Sarepta de Sidom.” (Lucas 4:25-26)

Por isso, ao se buscar um “mantenedor”, em primeiro lugar deve se buscar pessoa de “” e não somente de “posses”, uma pessoa que saiba reconhecer e seja obediente a voz do Espírito Santo. Porque esse mantenedor precisará crer na “Palavra” que você der a ele em nome de Deus, então, não se preocupe em usar métodos humanos elaborados por pessoas boas de marketing ou gerenciamento empresarial, volte ao método bíblico: oração, submissão a Deus, conhecimento da Palavra pela revelação do Espírito Santo e amor pelas almas. Assim, o Senhor te levará às pessoas que Ele preparou para te sustentar no devido tempo (Mt 24:45-46; 1 Co 4:2).

Além disto, não cometa o erro de muitos hoje em dia olhando para a “grandeza denominacional” de algumas Igrejas, prestigiando as grandes Igrejas, menosprezando os pequenos salões alugados; buscando os grandes empresários e homens de negócios, mas não acreditando na fé das “viúvas de Sarepta” das pequenas Igrejas. Muitas vezes, as pessoas de posses dentro da Igreja, bem como “Igrejas Ricas”, contribuem do que lhes sobram (Lc 21:3-4) e isso não gera o “milagre da multiplicação” (Jo 6:9-13; 2 Co 9:6-15).

Espero que, você que leu este texto pratique as verdades nele contido que nas suas “mobilizações” você deixe o Deus do Profeta Elias, o Deus de Israel, o Deus que agora supre nossas necessidades em Cristo Jesus (Fp 4:19) te conduzir a fazer o que Ele quer, da maneira que Ele quer e aonde Ele determinar, porque, se como o Profeta você for obediente, então você verá milagres sobrenaturais de sustento e multiplicação de Deus em sua vida, bem como você encontrará “mantenedores” de fé, obedientes e fieis para te sustentar independente da própria condição material/financeira e da crise de qualquer país.

 

Não a nós, não a nós Senhor, mas ao teu Nome dai Glória!
E que o Espírito Santo continue a falar em seu coração!

 

Anderson Fazzion,
Coordenador do CIM – WH Brasil
Janeiro, 2018

 


Para contato e saber mais sobre o CIM WH Brasil, acesse:

Cuidado Integral do Missionário – WH Brasil.


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