Cansado, eu?

por Isabella Poppi

Pode ser que você sinta que é até errado pensar nisso, não é? Vivemos numa época em que ver-se cansado é sinônimo de fraqueza, imperfeição, vulnerabilidade. Brown (2016), ao falar sobre isso, pontua que a vulnerabilidade é vista como subversiva, incômoda, perigosa. Parece que, além de ser uma exposição enorme afirmar que as energias precisam ser repostas, desnudar-se significa correr um grande risco de ser magoado. No entanto, o que a autora afirma é que a vulnerabilidade é uma dádiva e permite àqueles que a assumem, viver com ousadia.

Particularmente, concordo com ela. A vulnerabilidade nos aproxima de quem somos em Deus e como Ele nos fez para viver, lembrando-nos da nossa insuficiência humana mas suficiência em Cristo. O cansaço nos traz exatamente essa tônica e ressalta a importância da autogestão em nossas vidas. A Bíblia nos traz um modelo excelente para isso: primeiro amo à Deus, depois aprendo a me aceitar e amar a minha identidade em Cristo, e depois, amo ao próximo.

Em minha trajetória, percebo o quanto somos tentados a inverter essas prioridades, e ao invés de receber, queremos produzir quem somos e entregar esse amor mascarado àqueles que elegemos próximos. Mascarado porque é impossível entregar um amor verdadeiro sem me apropriar de quem eu sou em Deus, e isso só acontece quando confio nEle.

Lynch, McNicol e Thrall (2011), afirmam que “Ousar confiar em quem Cristo diz que eu sou em quem Ele diz que é em mim, mesmo quando sinto que não mereço nada disso e a vergonha vem me varrendo, é a única maneira de me manter sem máscara”. A máscara é o preço de tentarmos produzir o que somente é possível receber por meio da confiança em Cristo – e as máscaras do super homem e da super mulher, também representam isso.

E o que isso tem a ver com janeiro branco – mês de campanha à prevenção da saúde mental e razão do presente artigo?

Quando eu tenho a convicção de quem sou em Cristo, aprendo a me amar e a permanecer numa postura de receber, regozijar e entregar. McCord (2010) define esse processo como permanecer, no qual encontramos a perfeita e constante provisão de Jesus – um relacionamento sem barreiras com Ele em nós que, num processo contínuo, nos torna como Ele, e pelo qual as promessas são cumpridas.

E o que isso tem a ver com janeiro branco – mês de campanha à prevenção da saúde mental e razão do presente artigo? Ao ensinar-nos a autogestão, o Senhor nos ensina também que ao estabelecermos limites construímos saúde integral em nós e podemos fazer a entrega do amor de forma saudável e intencional, seja qual for o seu trabalho. “Cuidar de si mesmo o libera para estar totalmente disponível para sua tarefa, sem que questões pessoais estejam misturadas ao seu trabalho” (O’Donnel, 2004, p.465).

A vida psíquica de uma pessoa é, imprescindivelmente, ligada à sua história de vida familiar, à espiritualidade experienciada e ao conjunto de valores morais e éticos que compõem e sustentam as áreas de vida desse indivíduo. Cada pessoa é formada por um acervo histórico único, que envolve afetos e emoções singulares, características emocionais próprias. (VAN DE MEER, 2013).

Sabe-se também que a exaustão emocional (da mente), dói mais do que a exaustão física (do corpo) e que a exaustão espiritual (da alma) dói mais do que a exaustão emocional (VAN DE MEER, 2013), e que, dentro do contexto missionário, a dimensão psicossocial é manifesta pela perda da autoestima, perda da identidade, instabilidade emocional, luto, medo do futuro, tensões familiares, codependência e dependência, falta de privacidade, falta de recursos humanos, financeiros e técnicos; falta de apoio e acolhimento sem críticas, cobranças e pré-julgamentos. (APMT, 2013).

Aprender a estabelecer limites é uma questão de ser coerente com a sua missão de vida.

Fica evidente então, a importância de cada pessoa conhecer em si mesmo seus limites, para não perder o equilíbrio na relação com suas tarefas e experiências no mundo (VAN DE MEER, 2013). Cloud & Townsend (2001) diz que os limites ajudam a lidar com o que está em nossa alma oferecendo o espaço seguro que o seu coração precisa, possibilitando maior estabilidade emocional, que, segundo Oliveira (2013), é a base do sucesso para adaptação do missionário ao campo.

O autor pontua que essa estabilidade é desenvolvida por meio do autoconhecimento e da autoestima, solidificados através de um relacionamento íntimo com o Pai. Em meio à resultados escassos e vagarosos, à perseguição, ao sentimento de frustrar à Deus, aos desentendimentos, às variações de ânimo, às pressões da carne, à tristeza do coração, no desenvolvimento do relacionamento íntimo com Deus está o centro de uma vida plenamente saudável. (VAN DER MERR, 2013).

Os limites nos ensinam a assumir a responsabilidade por todas as áreas de nossa alma e como cristãos, temos o grande desafio de mantê-los, mesmo diante de uma demanda de serviço sem limites. Aprender a estabelecer limites é uma questão de ser coerente com a sua missão de vida – liberar continuamente ao mundo as intenções perfeitas de Deus: marca de quem experimenta um relacionamento alegre e sem máscaras com Jesus.

Sentir-se esgotado então não tem como causa o seu doar, mas a sua autossuficiência. Estar cansado, triste, irritado, são configurações situacionais inerentes ao viver e que nos ensinam muito. Buscar saúde é aprender a lidar com cada vivência de forma mais equilibrada. E como isso é possível? Comece por reconhecer suas próprias necessidades e lembre-se de que não é possível mudar o outro, apenas você; estabeleça limites e aceite suas limitações como um lembrete para você continuar “permanecendo”; decida cuidar do seu corpo, mente e emoções e estabeleça prioridades – essa é uma escolha exclusivamente sua; e por último, peça ajuda: você não foi feito para viver sozinho.


Isabella Poppi reside em São Paulo, é psicóloga clínica com especialização em Terapia Familiar e Psicologia da Saúde. Aluna do Seminário Teológico Bíblico do Betel Brasileiro, participante do CIM-SP, serve como facilitadora no Celebrando a Restauração da PIB-Penha, contribui com a elaboração de laudos psicológicas dos candidatos da APMT e é voluntária no Ministério Oásis.


 

Referências Utilizadas:

APMT. Agência Presbiteriana de Missões Transculturais. Intervenções nas Crises. São Paulo, 2013. Disponivel em: http://www.apmt.org.br/central-de-artigos?page=2

BROWN, B. Coragem de ser imperfeito. São Paulo: Sextante, 2016.

Cloud, H.; Townsend, JLimites: quando dizer sim, quando dizer não. São Paulo: Ed. Vida, 2001.

Lynch, J;  McNicol, B.; e Thrall, B. The cure: what if God isn’t who you think He is and neither are you. Phoeniz, AZ: Trueface, 2011.

MCCord, C. A vida que satisfaz. São Paulo: Impressa da Fé, 2007.

O’Donnell, Kelly. Cuidado Integral do Missionário. Organizado por Kelly O’Donnel. –. Londrina: Descoberta, 2004.

OLIVEIRA, M. R. ; JUNGES, J. R. Saúde mental e espiritualidade/religiosidade: a visão de psicólogos. Estud. psicol. (Natal), Natal , v. 17, n. 3, p. 469-476, Dec. 2012.

Van der Meer, A.L. In Criando Filhos Entre Culturas: para cuidar melhor da família morando no exterior, Alícia Macedo (Org.), Ultimato, 2011.

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