O limite para o esforço humano

Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.
(Mateus 4:3-4).

 

Usando o registro de Mateus 4:3-4 como texto de introdução, ou texto base, não quero desenvolver como tema questões relacionadas com “batalha espiritual” ou “como vencer as tentações”. Como em toda a Palavra, esse trecho nos fala muito mais do que esses temas já muito explanado no contexto da tentação de Cristo Jesus.

Sabemos no contexto dessa primeira tentação, que Cristo Jesus foi testado pelo maligno na área da necessidade humana, mas especificamente, da sobrevivência humana, após Ele ter jejuado por quarenta dias, momento que o diabo o tentou a usar seu poder para se alimentar de forma sobrenatural, transformando pedras em pães.

Como já muito se ouviu, Jesus cita as Escrituras para rechaçar o tentador. Para tanto, Ele cita o registro constante em Deuteronômio 8:3, onde Moisés, inspirado pelo Espírito Santo, registrou o motivo de Deus ter dado o “maná” ao povo de Israel durante os quarenta anos que os fez vagar no deserto. Moisés afirmou:

“Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

Desta forma, compreendemos que o “pão” citado por Jesus em Mateus 4:4, é uma alusão ao “maná” sobre o qual, o registro dos fatos, se encontram no livro de Êxodo, capítulo 16. O tema também é desenvolvido por Cristo Jesus, interpretando linguagem de “tipos” e “figuras” das Escrituras para instruir a respeito do “Verdadeiro maná”. O “maná no deserto” havia sido somente uma sombra, um tipo (Sl 78:23-24; 105:40), daquilo que Deus daria aos homens. Por isso, Jesus afirmou: “Meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu” (Jo 6:32), se referindo ao “Evangelho” e, especialmente, a Ele mesmo (Jo 1:1-1,14,17; 6:30-41).

Embora muito citado por pregadores, vale ressaltar que, literalmente, não caía “pão do céu” como dá a entender o Salmo 105:40, que foi citado pelo povo à Jesus registrado em João 6:31. Na realidade o que Deus deu ao povo no deserto foi algo parecido com “semente de coentro”, que foi até chamado de “cereal do céu” no Salmo 78:24, cereal este que precisava ser cozido ou moído para se preparar o pão, conforme Êxodo 16:23,31 e Números 11:7-9.

“Respondeu-lhes ele: Isto é o que disse o SENHOR: Amanhã é repouso, o santo sábado do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobrar separai, guardando para a manhã seguinte. (…) Deu-lhe a casa de Israel o nome de maná; era como semente de coentro, branco e de sabor como bolos de mel. ” (Êxodo 16:23,31)

“Era o maná como semente de coentro, e a sua aparência, semelhante à de bdélio. Espalhava-se o povo, e o colhia, e em moinhos o moía ou num gral o pisava, e em panelas o cozia, e dele fazia bolos; o seu sabor era como o de bolos amassados com azeite. Quando, de noite, descia o orvalho sobre o arraial, sobre este também caía o maná. ” (Números 11:7-9).

Foi desta forma que Deus alimentou o povo de Israel, sob a liderança de Moisés, durante “quarenta anos” com pão diário (Ex 16:35; Dt 8:2-3; Ne 9:20-21). Foi enfatizando isso que Jesus recomendou ao povo de Israel de sua época que não “trabalhassem pela comida que perece” os repreendendo por buscarem a Ele somente por aquilo que Ele havia feito e não por quem Ele era (Jo 6:26-27). Embora o “maná” tivesse sua origem sobrenatural a ponto de ser chamado de “cereal do céu” ou “pão do céu” (Sl 78:23-24; 105:40) era necessário uma ação humana para se ter o pão, ou alimento, todos os dias (Êx 16:32-35; Mt 6:11).

Ao longo de um estudo ou leitura apropriada da Bíblia, aprendemos que há coisas que Deus nos manda fazer sem qualquer tipo de ajuda ou intervenção dEle, outras, Ele nos ajuda a fazer suprindo materialmente ou com ajuda de pessoas e, em outras, Ele age independente de qualquer ação nossa, intervindo milagrosamente a nosso favor nos conduzindo soberanamente segundo a sua vontade.

Perceba que, no caso do “maná”, Deus não eximiu o povo da parte que lhes cabia como esforço humano, no caso, Ele não deu o “pão pronto” caindo do céu, como muitos pensam, era necessário que o povo colhesse e preparasse o grão que, milagrosamente, caia do céu (Êx 16:23,31; Nm 11:7-9). Desta forma, aprendemos que Deus não despreza o esforço humano, mas, havia alguns princípios que o povo deveria observar para esse “esforço humano”.

Primeiro: havia uma medida certa para cada pessoa de cada família. Interessante é que não importava se uns pegavam mais e outros menos, quando colocavam na vasilha de medir (gômer) a quantidade era igual para cada pessoa da família. Isso nos ensina que Deus trata todo o esforço humano de forma igual, os resultados serão sempre àqueles que Deus já pré-determinou.

“Eis o que o SENHOR vos ordenou: Colhei disso cada um segundo o que pode comer, um gômer por cabeça, segundo o número de vossas pessoas; cada um tomará para os que se acharem na sua tenda. Assim o fizeram os filhos de Israel; e colheram, uns, mais, outros, menos. Porém, medindo-o com o gômer, não sobejava ao que colhera muito, nem faltava ao que colhera pouco, pois colheram cada um quanto podia comer. ” (Êxodo 16:16-18).

Isso fica claro na parábola da contratação de trabalhadores para a vinha, onde no final, independente do horário do dia que começaram, todos recebem o mesmo salário. No Reino de Deus, não importa se começamos a trabalhar cedo ou mais tarde, todo esforço ou trabalho, terá a mesma recompensa ou pagamento (Mt 20:1-16). Além disto, o apóstolo Paulo utiliza o texto de Êxodo 16:16-18 para nos ensinar sobre “contribuição proporcional” em 2 Coríntios 8:15, onde ele ensina que quando há proporcionalidade na oferta não há sobrecarga para ninguém. Quem muito recebe, muito pode dar, quem pouco recebe, do pouco que tem pode ofertar. Devemos contribuir de acordo com a nossa renda (2 Co 8:12-15).

Segundo: o povo deveria recolher a quantidade do “maná” determinada apenas para um dia, exceto na sexta-feira, onde recolheriam duas medidas, sendo uma para o sábado, que era o dia do descanso determinado por Deus. Porém alguns não “obedeceram” e recolheram mais do que determinado para o dia, tendo o estoque de “maná”, o “cereal do céu”, dado bicho e cheirado mal.

“Disse-lhes Moisés: Ninguém deixe dele para a manhã seguinte. Eles, porém, não deram ouvidos a Moisés, e alguns deixaram do maná para a manhã seguinte; porém deu bichos e cheirava mal. E Moisés se indignou contra eles.” (Êxodo 16:19-20).

Isso nos ensina que o esforço humano deve ser na medida que Deus determina. Que nossos “esforços humanos” pode se tornar em vão se não for de conformidade com aquilo que Deus pré-determinou. O povo desgastou fisicamente para sair de suas tendas, recolher um peso (medida) maior do que havia sido determinado, separar as medidas e estocar em vasilhames para, no dia seguinte, ver que todo seu “esforço” cheirava mal e tinha bichos, além de provocar indignação na liderança (Êx 16:20).

Nosso Deus não tem compromisso com preguiçoso (Pv 6:9, 19:25, 21:25) ou indolente (Pv 12:24, Mt 25:26-30), contudo, nosso Deus não quer que seus servos usem do “esforço humano” de maneira errada, buscando o benefício próprio (Sl 127:1-2) ou dissociado de seus princípios eternos (Mt 25:19-29, Fp 2:4-9).

Recolher mais do que havia sido determinado era uma demonstração de falta de confiança em Deus e na sua capacidade de suprir suas necessidades materiais diárias. Planejar para o manhã é tempo bem investido; trabalhar em excesso pelo manhã é tempo perdido. Algumas vezes é dificultoso notar a diferença. Planejar é pensar com antecipação em metas, passos e datas, e confiar na direção de Deus (Tg 4:13-16). Quem trabalha em excesso, com medo do amanhã, demonstra um temor que o impede de confiar em Deus. Não permita que seu afã pelo manhã afete suas relações com Deus hoje. (Mt 6:31-34).

Terceiro: o povo tinha que ser disciplinado no horário visto que, se atrasassem não mais encontrariam o que recolher para preparar na alimentação.

“Colhiam-no, pois, manhã após manhã, cada um quanto podia comer; porque, em vindo o calor, se derretia.” (Êxodo 16:21).

As coisas de Deus não podem ser apressadas por nossos esforços humanos, mas, se não empenharmos para realizar a obra ou serviço que Deus nos determina conforme o tempo determinado por Ele, corremos o risco de não termos os resultados que Ele espera em nossa vida.

A Palavra de Deus nos afirma que “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” e que “tudo fez Deus formoso no seu devido tempo” (Ec 3:1,11a), que existe um “tempo certo e modo certo” de se fazer as coisas (Ec 8:6a).

Neste sentido, o povo israelita no deserto recebeu de Deus através de Moisés o “modo” e o “tempo” para recolher o “maná” (Êx 16:16,19,21). Se deixassem de observar isso, o “modo” e o “tempo”, não usufruíam da bênção de ser alimentado no deserto de uma forma sobrenatural. Se dormissem até “mais tarde”, ou seja, se fossem indolentes com as ordens recebidas, não se esforçassem para cedo recolher o “maná”, não teriam o sustento diário dado por Deus (Ef 5:14-17).

Infelizmente, o povo de Deus hoje em dia não observa mais este princípio eterno de Deus, acham que Ele é “obrigado”, mediante suas “promessas”, a fazer tudo do modo e no tempo que acham melhor, com isso, perdem o tempo “oportuno de Deus” de terem o “Pão Vivo descido do céu”, o Senhor Jesus Cristo plenamente em suas vidas (Jo 6:35-37,49-52; 2 Co 6:2; Gl 4:4; Ef 1:9-10).

Quarto: o povo não só desobedeceu pelo fato de terem colhido mais do que determinado para cada dia, mas também por saírem para recolher no sábado, o dia do descanso determinado por Deus.

“Ao sexto dia, colheram pão em dobro, dois gômeres para cada um; e os principais da congregação vieram e contaram-no a Moisés. Respondeu-lhes ele: Isto é o que disse o SENHOR: Amanhã é repouso, o santo sábado do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobrar separai, guardando para a manhã seguinte.  E guardaram-no até pela manhã seguinte, como Moisés ordenara; e não cheirou mal, nem deu bichos. Então, disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto o sábado é do SENHOR; hoje, não o achareis no campo.  Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele, não haverá. Ao sétimo dia, saíram alguns do povo para o colher, porém não o acharam. Então, disse o SENHOR a Moisés: Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e as minhas leis?” (Êxodo 16:21-28).

É muito fácil deixar que o trabalho, as responsabilidades familiares e a recreação saturem nossos programas diários a ponto de não termos tempo para adorar ao nosso Deus, servindo-o. Ao saírem para recolher o “maná” no sábado, os israelitas demonstraram que não importavam com as “ordens” de Deus. A verdadeira adoração está no fato de se “obedecer” ao que Deus determina no dia-a-dia, não em “rituais” realizados durante um culto em um dia da semana ou fazendo algo para Ele, em nome dEle, da forma que achamos melhor (1 Sm 15:22; Jr 7:22-23).

Além disto, ao recolherem o “maná” no sábado, o povo também demonstrou que se preocupava mais em “ter”, isto é, buscaram “ter” além do necessário, afinal de contas, se tivessem obedecido e recolhidos duas medidas e preparado a alimentação na sexta-feira, como fora determinado (Êx 16:23-25) não teriam falta de alimento no sábado e, não desperdiçariam seu “esforço humano” indo buscar algo que Deus já havia determinado que não teria no sábado (Êx 16:26-27).

Quando desobedecemos a Deus diante de suas ordens claras já reveladas em sua Palavra ou ao nosso coração nas meditações e orações diárias, todo nosso esforço será inútil, pois não teremos o retorno esperado, contudo, o inverso também é verdadeiro. Quando nos esforçamos na busca de algo, com esforços ou objetivos meramente humanos, e não atingimos o resultado esperado, mas, ouvimos a Palavra de Deus e cumprimos sua ordem, temos a experiência de alcançar mais do que esperávamos naquilo que tentamos com esforço humano sem a direção de Deus (Lc 5:3-8).

Desta forma podemos concluir que sair da dependência de Deus é aniquilar a confiança em Deus, é desonrar a Deus, é exaltar a vontade própria como causa determinante de tudo. Deus pode sim alimentar e sustentar o ser humano sem qualquer meio material, apenas pela mera força de sua vontade, contudo obedecê-lo é essencial para vermos o milagre dEle em nossa vida no que tange o suprimento de nossas necessidades humanas diárias e para a obra que realizamos em nome dEle (Lc 12:31-32; 2 Co 9:8-10; Fp 4:19).

Que sejamos obedientes diariamente a tudo que nosso Deus nos determinou a fazer, não buscando, pelo mero esforço humano, alcançar mais do que Ele já determinou para cada um de nós.

 

 

Anderson Fazzion,
Coordenador do CIM – WH Brasil
andersonf@vitalia.org


Para contato e saber mais sobre o CIM WH Brasil, acesse:

Cuidado Integral do Missionário – WH Brasil.


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